Ecologia


Ao resgatar textos de uma obra escrita entre as décadas de 40 e 50, me dei conta que muito já se perdeu da fauna, flora e beleza natural do litoral rio-grandense. A degradação de habitats e a extinção de espécies é irreversível e para sempre. A urbanização, a poluição, os condomínios e um turismo perigosamente predatório já modificaram irreversivelmente a vida natural da região.

Em Tramandaí, Capão da Canoa ou Arroio do Sal você já viu algum desses bichos?

O texto a seguir foi adaptado de P. Balduíno Rambo, 1956.

Na fauna marítima, encontramos um mundo incontável de seres pequenos e mínimos, os peixes e os cetáceos (baleia, boto, toninha, etc.), e relacionados a esses os intrigantes sambaquis.

O mais comum dos vertebrados marítimos é o pingüim, que no inverno, depois dos temporais, aparece em grande número na costa brasileira, onde morre. Parece que o pingüim se deixa levar para o norte pela corrente fria das ilhas Falkland até o ponto onde esta se encontra com a corrente quente do nosso litoral, e ali, falto das condições naturais de vida, sucumbe. Os lobos e leões marinhos igualmente derivam desde as Falkland, aqui habitando a ilha dos lobos ou ocupando aos montes as areias das praias, onde se movem com tão pouco jeito, que por vezes são colhidos pelas rodas dos caminhões.

Na praia distinguem-se animais passivamente atirados sobre a areia: urtiga do mar, mãe-d’água, mãe-d’água-vela, ovos de raias e cações, ovos de caracóis de casca transparente, ramos brancos de coral com numerosos animais retraídos ou mortos, teredens ou gusanos, grande número de conchas pertencentes a várias espécies, como a concha púrpura, o caracol barril, a ostra, a esponja furadora, briozoários, ouriços do mar, e restos de peixes. Na zona dos rochedos de Torres encontramos colônias de mexilhões, cobrindo aos milhares as pedras lavadas pela água; vermes de tubo de areia ou calcário; cracas presas ao rochedo; o caramujo pião; anêmonas do mar; e várias espécies de sirís.

Na praia lavada pelas ondas distinguimos a tatuíra, os mariscos, o marisco cavador, os aselos arenosos (Isopodes – pequenos crustáceos parecidos com formigas), o sirí azul, a aranha do mar, o caranguejo espinhoso e o caranguejo eremita.

Dentre as aves figuram o socó, o bigoá, o gaivotão, a gaivota rapineira, a gaivota branca, o cara-cará, o chimango do campo, a fragata, as andorinhas do mar, a gaivota comum, os bejaguís, o talha mar.

Ao pé das dunas o tuco-tuco cava suas galerias subterrâneas; à beira da ressaca, às vezes lavado pela espuma, o grande sapo cururú, de ventre branco e dorso escuro malhado de branco, procura alimento.

Nas dunas vemos pequeníssimas formigas abrigadas ao pé das touceiras de grama; o cascudo rapineiro da praia e outros celeópteros corredores, disparam, com grande rapidez, sobre a areia; as pistas do sapo cururú, da lagartixa das dunas, da lagarta cabeluda da borboleta bruxa e do maçarico da praia se cruzam em todas as direções, produzindo, nos dias calmos, desenhos curiosos sobre o branco lençol das areias; em pequenos buracos vive um forficulídeo, erradamente chamado de lacraia; na areia ainda úmida abrem-se as tocas do sirí das dunas, de pernas achatadas, couraça dorsal tenaz e branca como porcelana; embora um pouco rara, ainda vimos a cobra nariguda, inofensiva, ocupada na caça de cascudos e provavelmente também de lagartixas.

Na zona do campo já quase não se pode falar duma fauna diferente dos outros campos rio-grandenses. O guarachaim, o mão-pelada, o veado campeiro comum – cervídeo abundante em todo Estado – e o veado galheiro que só ocorre na zona do litoral, porque nas outras partes do Estado faltam os grandes banhados, que constituem o seu paradeiro.

Referência:
RAMBO, P. Balduíno. A Fisionomia do Rio Grande do Sul, Volume VI. Livraria Selbach, Segunda Edição, Porto Alegre, 1956.

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Entrevista com José Lutzenberger, texto redigido por Ney Gastal, publicada no Jornal RS em janeiro de 1989.

Chico Mendes morreu. Foi morto. E esta morte gerou um fato novo. Não foi o primeiro assassinato deste a ocorrer. Centenas, talvez milhares de pessoas já morreram em atentados semelhantes. Os próprios auxiliares do Chico, quase todos já foram mortos. Mas, pela primeira no mundo, o assassinato de uma pessoa tão humilde, vivendo em um lugar tão remoto, teve uma repercussão tão grande em nível internacional. Na Europa e nos Estados Unidos a morte de Chico foi notícia até em jornais regionais, de pequenas aldeias. Mesmo na imprensa brasileira a repercussão foi maior do que o usual. Quando me telefonaram, uma hora depois da morte do Chico, pensei no que fazer para que ela não fosse em vão, e tivesse a maior repercussão possível. Mas não foi necessário fazer nada. Desde o dia 23 de dezembro até hoje não houve um único dia em que a imprensa deixasse de mencionar o fato. O que demonstra a consciência que existe em todo o Planeta sobre a importância do que está acontecendo na Amazônia. Neste sentido a morte de Chico não terá sido em vão.

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