Entrevista com José Lutzenberger, texto redigido por Ney Gastal, publicada no Jornal RS em janeiro de 1989.

Chico Mendes morreu. Foi morto. E esta morte gerou um fato novo. Não foi o primeiro assassinato deste a ocorrer. Centenas, talvez milhares de pessoas já morreram em atentados semelhantes. Os próprios auxiliares do Chico, quase todos já foram mortos. Mas, pela primeira no mundo, o assassinato de uma pessoa tão humilde, vivendo em um lugar tão remoto, teve uma repercussão tão grande em nível internacional. Na Europa e nos Estados Unidos a morte de Chico foi notícia até em jornais regionais, de pequenas aldeias. Mesmo na imprensa brasileira a repercussão foi maior do que o usual. Quando me telefonaram, uma hora depois da morte do Chico, pensei no que fazer para que ela não fosse em vão, e tivesse a maior repercussão possível. Mas não foi necessário fazer nada. Desde o dia 23 de dezembro até hoje não houve um único dia em que a imprensa deixasse de mencionar o fato. O que demonstra a consciência que existe em todo o Planeta sobre a importância do que está acontecendo na Amazônia. Neste sentido a morte de Chico não terá sido em vão.

Pessoalmente, tive poucos contatos com ele. Nos encontramos em diversos congressos de meio ambiente, principalmente sobre Amazônia, e só nestes momentos pudemos conversar. Mas consegui, através de minha Fundação, uma verba para ajudá-lo. Chico era muito pobre e precisava passar longos períodos trabalhando na floresta, nos seringais, quando seria mais útil trabalhando pela desta floresta e dos seringais. Por isto, consegui uma verba mensal para ajudá-lo a sobreviver, sem precisar passar este tempo nos seringais. Agora estou gestionando junto a uma fundação americana para que ajude sua família, que ficou sem nada. Basta lembrar que a casa do Chico era um casebre de madeira, e que ele foi morto quando ia tomar banho, no banheiro que ficava fora do corpo da casa. Vejam como uma pessoa humilde pode se tornar importante na luta por uma causa mundial. Porque a luta pela preservação da Amazônia interessa a todo ser vivo deste Planeta.

Isto pode ser explicado em dois níveis, começando pelo biológico. As grandes florestas tropicais úmidas, na Amazônia, África, Indochina, Índia, Malásia, Filipinas, Indonésia, Nova Guiné e norte da Austrália são os ecossistemas mais complexos e ricos de vida de todo o Planeta. Ninguém sabe o número de espécies que existe ali. Cerca de 70% das espécies de vida da Terra vivem nestas florestas. Da maneira como são destruídas hoje, estamos apagando da face da terra milhares, senão milhões de espécies. Se amanhã desaparecesse a girafa, a zebra, o hipopótamo ou a baleia, isto seria manchete em todos os jornais do mundo. No entanto, cada vez que se derruba uma grande área da floresta amazônica, desaparecem dezenas, talvez centenas de espécies de animais e plantas menores. São insetos, aranhas, pequenos invertebrados, pássaros, répteis e mesmo pequenos mamíferos que desaparecem para sempre. Por que a floresta tem uma barbaridade de endemismos, ou seja, espécies endêmicas, que ocorrem somente em uma pequena região e em nenhum outro lugar do mundo. No momento em que o ecossistema desta região é destruído, aquela espécie também desaparece. Uma espécie que desaparece não volta jamais. Extinção é para sempre. Não só a Terra, mas o próprio Universo fica mais pobre. Então as pessoas que têm um mínimo de sentimento, um mínimo de sensibilidade, se preocupam com isto. Para estas pessoas, tais motivos são suficientes para que se preservem as florestas.

Infelizmente, são poucas as pessoas sensíveis a isto. Então tenho abandonado esta argumentação em favor de outra. Quem entende a importância deste processo biológico já está do nosso lado, e de nada adianta ficar pregando para convertidos. Precisamos de decisões, decisões imediatas, e estas só podem vir dos governantes, dos tecnocratas. Entre estes, infelizmente, idealistas são exceção, e o conhecimento científico, raro. Por isto precisamos de outro tipo de argumentação, que sacuda com as suas convicções. Este é o argumento climático. È comum ouvirmos as pessoas dizerem que a Amazônia é o pulmão do mundo. Muitos tecnocratas usaram esta expressão para contra-argumentar que a Amazônia consome toda a quantidade de oxigênio que produz, logo não pode ser o pulmão do Planeta.

Existe aí um duplo equívoco. O pulmão consome, e não produz oxigênio, ao contrário do que pretendem os que utilizam esta imagem para dizer que a Amazônia é uma espécie de fábrica de oxigênio. Mas ela também está incorreta sob outro ponto de vista. Se a floresta, ou qualquer outro ecossistema, produzisse mais oxigênio do que consome, a concentração deste gás na atmosfera terrestre estaria em constante aumento. E isto não acontece. Pelo que sabemos, desde que houve a primeira transformação da atmosfera inicial, que era reduzinte, para uma atmosfera oxidante (dois e meio ou três bilhões de anos atrás), os níveis de oxigênio mudaram muito pouco.

A vida surgiu em uma atmosfera bem diferente da atual. Não havia oxigênio na atmosfera. Era uma atmosfera reduzinte, ou seja, que não oxidava as coisas. Naquele período ferro não se oxidava, ficava apenas preto. Hoje, ferro oxida, fica marrom, se degrada. Naquela atmosfera primordial predominavam gases como o metano, o gás carbônico e o amoníaco. Quando a vida produziu o fenômeno da fotossíntese, que tem como subproduto o oxigênio, este aos poucos foi oxidando o amoníaco, o gás carbônico, o metano, e deu origem a esta atmosfera que temos hoje, com uns 79% de nitrogênio, 20% de oxigênio e apenas um por cento de outros gases. Desde que a fotossíntese transformou aquela primeira atmosfera na segunda, as coisas têm se mantido estáveis durante cerca de dois e meio ou três bilhões de anos. Se não fosse assim, a vida teria acabado há muito tempo.

Se a concentração de oxigênio fosse mais baixa, os animais acabariam morrendo, porque precisam dele para viver. Se fosse mais alta, e em vez de 20% tivéssemos entre 25% e 30% de oxigênio na atmosfera, seria também o fim da Vida na superfície do Planeta. Uma concentração destas permitiria a uma árvore queimar em dia de chuva. O primeiro relâmpago acabaria com todos os ecossistemas. Veja, portanto, que a Vida neste Planeta é uma coisa bastante equilibrada, que mantém as condições propícias à sua própria existência.

Isto é a base do conceito Gaia.

As florestas tropicais úmidas, que antes da devastação das últimas décadas totalizavam algo em torno de nove milhões de quilômetros quadrados (mais da metade do continente americano), foram importantíssimas neste processo de manutenção das condições de vida do Planeta. Elas não foram o pulmão, como se dizia, e sim uma colossal bomba de calor. O que é “bomba de calor”? O refrigerador e o ar condicionado são bons exemplos. O primeiro tira o calor de seu interior e o dissipa do lado de fora. O ar condicionado pode tanto tirar calor da peça e jogá-lo para fora, quanto tirá-lo de fora e jogá-lo para dentro. A floresta tropical úmida é um colossal aparelho de ar condicionado, que regula a temperatura do Planeta. Há pouco tempo eu estava fazendo uma palestra no Canadá, quando um estudante perguntou como a floresta tropical úmida sobreviveu à Idade Glacial. A maioria das pessoas imagina que durante as Idades glaciais, que duraram milhares de anos cada uma (foram quatro), o Planeta inteiro ficou gelado. Nada disto! O gelo avançou na Europa, na Sibéria, na América do Norte, e um pouco aqui no sul da Argentina e da Austrália. Mas as temperaturas no Equador continuaram as mesmas. No auge dos períodos glaciais, quando o norte da Europa e o Canadá estavam cobertos por dois ou três quilômetros de gelo, as temperaturas nas regiões de Manaus ou Belém eram as mesmas de hoje. Os cinturões tropicais, estes sim, ficaram mais estreitos.

Imaginemos que no lugar da floresta tropical úmida houvesse um Saara. O deserto refletiria a maior parte da energia solar que ali incidisse de volta ara o espaço. Esta energia se perderia para o Planeta. Hoje, ao contrário, existe ali a floresta tropical úmida, que tem uma fantástica evapotranspiração. O que quer dizer isto? É a soma da evaporação e da transpiração. O professor Salati, climatologista da Universidade de Piracicaba, que se aprofundou nesta questão, quando estava no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), em Manaus, fez um grande estudo sobre o ciclo da água das chuvas da região. Colhendo amostras e comparando isótopos de hidrogênio e oxigênio, ele podia determinar exatamente de onde vinham as amostras de água da chuva, se do oceano ou de diversos processos de reciclagem. Com estes estudos, ele demonstrou que, das chuvas que caem na Amazônia, cerca de 75% são devolvidas à atmosfera em menos de 48 horas e formam novas chuvas. 25% desta água nem chega até o chão: voltam ao mar, ainda evaporando parte no caminho. Os outros 50% são bombeados pela planta no subsolo para a copa, e devolvidos à atmosfera pela transpiração.

Vamos visualizar a floresta amazônica, com o Atlântico a leste e os Andes a oeste. Os ventos alísios trazem as grandes massas de nuvens baixas, a cerca de 800 metros, e as primeiras nuvens ocorrem já no litoral. Salati demonstrou que esta chuva, quando chega à encosta dos Andes, já desceu e subiu cerca de seis ou sete vezes. Isto resulta numa gigantesca troca de energia, que é depois distribuída pelo Planeta inteiro. Ora, se ali tivéssemos um deserto, os ventos ascendentes originados do aquecimento do solo nu dissipariam as nuvens logo após a primeira chuva. A floresta, ao contrário, absorve a energia solar e a utiliza para evaporar e condensar água, fazendo uma fantástica reciclagem que vai da costa atlântica até os Andes. Segundo Salati, a energia envolvida neste processo, sobre quase cinco milhões de quilômetros quadrados de floresta, corresponde à energia de dezenas de milhares de bombas atômicas por dia! Isto é uma gigantesca máquina de transmissão de energia.

Hoje existem instrumentos fantásticos, que nos permitem ver o globo em sua totalidade. Se formos ao INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos, ou até a NASA, nos Estados Unidos, podemos ver no monitor dos computadores a imagem do Planeta como um todo, com a Amazônia ao centro, e todo o deslocamento destas massas de nuvens. Nestes mesmos monitores vemos que, ao chegarem aos Andes, estas massas de ar se dividem em duas correntes. Uma vai para o Sul, atravessando toda a parte central do Brasil, chegando até aqui e entrando Patagônia adentro. Nosso clima no Sul depende muito da Amazônia. A outra corrente vai para o Norte. Toca a costa oriental dos Estados Unidos e entra até a Escandinávia e Europa Central.

Nestas imagens se vê quanto o clima da Europa, Sibéria e aqui da América do Sul depende em grande parte da Amazônia. Desde que temos esta visão global do Planeta, ficou bem clara a importância da Amazônia, e de todas as outras florestas equatoriais úmidas que ainda restam para a regulagem do clima mundial. Ao mesmo tempo que fica cada vez mais clara a fragilidade do processo todo.

Nestes últimos congressos sobre clima, em Toronto e Hamburgo, onde se reuniram centenas de climatólogos de todo o mundo, todos reconheceram que as irregularidades climáticas que estão afetando o Planeta inteiro nestes últimos dez ou quinze anos são as primeiras manifestações do efeito estufa, provocado pela civilização industrial. Mas, por outro lado, e foi isto que me chocou nestes congressos, estes cientistas continuam a fazer extrapolações lineares. Uma vez que o efeito estufa está aumentando, elevando a temperatura do Planeta, eles extrapolam a situação atual e afirmam que, nos próximos 40 ou 50 anos, a Terra vai ficar de quatro a cinco graus mais quente. Mas por que supor que o aumento será uniforme em todo o Planeta? Assisti em Hamburgo a uma conferência de um climatólogo britânico que falava sobre como a agricultura do mundo deve se adequar às mudanças climáticas que estão por vir. Em vez de se preocupar em mudar os métodos agrícolas para que eles não prejudiquem ainda mais o clima global, ele se preocupa apenas em adequar a agricultura a estas mudanças. E dizia até que elas não vão ser tão ruins, mostrando um mapa da Finlândia com dois riscos horizontais atravessando o país. Um, limitando a faixa até onde é possível plantar trigo hoje. Outro, 300 quilômetros mais ao norte, marcando até onde, segundo ele, será possível plantar este trigo quando o Planeta estiver mais quente. Não posso, de maneira alguma, aceitar este tipo de extrapolação linear. A natureza não se comporta assim, e temos bons exemplos disto.

Desde 1970 os climatólogos vêm advertindo sobre os riscos dos gases freón, dizendo que os mesmos estavam atacando a camada de ozônio. Calculavam o desgaste da mesma em 30% ou 40%, até o ano 2020. Só que previam uma diminuição gradual, lenta e uniforme sobre o Planeta inteiro. Na realidade o que aconteceu foi que se abriu um buraco na camada de ozônio em um lugar só, sobre a Antártida. Este tipo de efeito é totalmente imprevisível! Só se toma conhecimento dele quando acontece. Ninguém previu que se abriria um buraco na camada de ozônio, tanto que, quando ele foi detectado, os cientistas chegaram a pensar que se tratava de defeito na programação de seus computadores, e não de uma realidade concreta. Outro exemplo aconteceu na costa do Peru, uns dez anos atrás, liquidando com a indústria pesqueira do país. Aquela era uma das costas mais ricas em peixe do mundo. Nela batiam as águas frias da Corrente de Humbolt, que vem do Pólo Sul trazendo nutrientes minerais, que provocam a proliferação de plâncton que, por sua vez, resulta no aumento da população de peixes. De repente, uma corrente quente do Norte, e pobre em nutrientes, em vez de virar para oeste, como fazia sempre, seguiu para o sul e deslocou a Corrente de Humbolt uns 300 quilômetros para o sul. Ninguém sabe porque isto aconteceu, mas o fato é que os peixes sumiram, os pássaros que se alimentavam deles morreram, e a indústria pesqueira se foi. Tudo por conta de um fenômeno repentino e inesperado. Estas coisas são imprevisíveis, não acontecem lenta e previsivelmente, como querem os cálculos destes cientistas.

Vou dar um exemplo mais antigo. Na Sibéria e nos países escandinavos foram encontrados corpos inteiros, intactos, de mamutes congelados. O mamute era um parente próximo do elefante, duas vezes maior do que este, que vivia naquelas regiões. Como é que estes mamutes foram enterrados nestas enormes capas de gelo? Bichos daquele tamanho não comiam liquens como os que nascem em terrenos frios da Tundra. Precisavam de pelo menos meia tonelada de comida verde por dia. Como foram ficar congelados na neve? Só mesmo se tivessem sido surpreendidos por uma violenta e inesperada tempestade de neve que caiu sobre eles cobrindo-os, e ficando ali, na forma de gelo, por milhares e milhares de anos. Sabemos que as eras glaciais podem levar dezenas, ou até milhares de anos para acabar. Mas começaram de repente, de um dia para o outro, ou no curto espaço de alguns anos ou décadas. É isso que o pessoal não está se dando conta. Se olharmos de novo aquelas imagens de satélite, que mostram as correntes aéreas que saem da Amazônia e vão para o Sul e para o Norte, percebemos que, se elas desaparecerem, irá se iniciar uma nova Idade Glacial na Europa e talvez aqui, no Extremo Sul. Por isto não adianta dizer, como querem nossos governantes e principalmente nossos militares, que aquilo que fazemos na Amazônia não interessa a ninguém, só a nós. Interessa, sim, e interessa a todo o mundo. A Amazônia não é só nossa. È do Planeta inteiro, um órgão vital do ser vivo chamado Gaia, que é a Terra. Não podemos continuar destruindo a Amazônia. É preciso parar. É preciso repensar conceitos. Mesmo porque, até sob um ponto de vista meramente econômico, aquilo é uma pilhagem. Os fazendeiros que estão lá ganham muito mais dinheiro com os subsídios do que com aquilo que plantam ou criam. Suas fazendas são 100% subsidiadas. O investimento feito é 100% dedutível do imposto e o sujeito ainda recebe dez anos de isenção fiscal total. Isto é corrupção, uma das causas desta inflação de 30% ao mês que estamos enfrentando. Mas se apenas os brasileiros pagam a conta da inflação, o mundo inteiro irá pagar pela destruição da floresta. Estamos destruindo a vida do Planeta para enriquecer meia dúzia de pessoas. O que está acontecendo na Amazônia é uma guerra. Uma guerra de pilhagem. Chico Mendes, como uma das pessoas que viviam integradas à floresta, lutou nesta guerra. Lutou contra a destruição. Foi um soldado da Vida. O mínimo que podemos fazer, em respeito à sua memória, é nos integrarmos todos à sua luta.

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